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    fev 14

    Canal do Público – Poesia de Augusto Dias

    Como se chama um poema?

    Escrevo para desaparecer
    Sob as frestas
    Da floresta insone;
    Através do labirinto
    Pop-cultural
    Onde, mais que a obra,
    O que sobra
    (E se pretende imortal)
    É o nome.
    Escrevo sobre a folha, poemas:
    Papel e caneta
    Matam minha fome.
    Os fonemas
    São amigos argutos,
    Vestidos de onomatopéias:
    Não são Césares
    Ou Brutus,
    Nem heróis de falsas odisséias.
    Escrevo para o mundo real
    Uma fábula sem importância:
    Quero desafiar, desmontar o banal
    Dessa gente fake
    E sem substância.
    Escrevo
    Para quebrar
    O espelho vazio,
    Esse frágil
    “Liame com o mundo”.
    Às vezes
    Sou como cão no cio;
    Minha poesia é a dama
    Beijando o vagabundo.
    O poema me chama
    Mas, como se chama
    O poema?
    Nesse teorema
    Não quero luzes
    Nem cruzes
    Na batalha da escrita:
    Que ninguém tema
    Minha certeira bala,
    Atingindo outra alma aflita.
    O poema grita
    Quando alguém o cala,
    E fala alto
    Quando se irrita.
    Reflita:
    Escrevo
    Para ”suscitar liberdades”;
    Nada que digo
    Cabe em mim
    E nunca sei
    Se há mentira ou verdade
    Tranqüilidade ou perigo
    No começo do meu fim.
    Escrevo para atravessar
    A linha tênue
    Que separa
    O espetáculo
    Do espetacular.
    Palavra por palavra
    O poema é receptáculo
    Daquilo que quero falar.
    Tento especular,
    Mas diante
    Da linha do tempo,
    Lentamente
    Minha poesia dá ré,
    Até
    Ré – começar.

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